Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

Por Márcio Derbli
23/9/15

Assistimos ao nascimento de um imaginário no Brasil de que o país estaria sendo invadido por hordas de imigrantes e refugiados. Na verdade, somos uma das nações que menos recebem estrangeiros permanentemente. Para o padre Paolo Parise, que coordena a Missão Paz, que acolhe migrantes, imigrantes e refugiados na cidade de São Paulo, uma das origens do preconceito com relação aos imigrantes é o desconhecimento sobre o outro. Conhecer a história dessas pessoas é fundamental para debater e diminuir o preconceito. Parise nasceu em Marostica, uma comuna italiana da região do Vêneto. Começou a trabalhar com refugiados e imigrantes na década de 1980, ainda naquele país, principalmente com pessoas do norte da África. No Brasil desde 1992, atuou em missões no litoral paulista e na Zona Sul paulistana, antes de coordenar a Missão Paz, na Paróquia Nossa Senhora da Paz, que fica na região central da cidade. A paróquia, construída em 1940 e ligada à congregação católica scalabriniana, acolhe comunidades coreanas, vietnamitas, africanas e latinas desde 1968.  Nesta entrevista para a revista Pré-Univesp, o padre fala da intensa rotina de trabalho da Missão Paz e do desafio de integrar essas pessoas e combater o preconceito contra elas.

Pré-Univesp – Qual é a distinção entre imigrante e refugiado?

Padre Paolo Parise – Esse é um detalhe interessante. Foi uma conquista no protocolo (de imigração) tirar o termo refugiado por conta do preconceito da sociedade brasileira. Em outros lugares do mundo, refugiado não tem a conotação que tem no Brasil. Muitas pessoas no Brasil escutam “refugiado” e entendem que a pessoa está fugindo, que tem problemas com a justiça em seu país.  Muitos olham o refugiado como se fosse um egresso. Por isso o Comitê Nacional para os Refugiados (Conare) solicitou a substituição desse termo. Então, no Registro Nacional de Estrangeiros (RNE) não aparece mais o termo refugiado. Imigrante é aquele movido mais por questões econômicas, às vezes também outras razões entram em jogo, mas podemos dizer entre aspas que não é forçado (a deixar seu país). Apesar de que, às vezes, a economia também força. O refugiado é aquele que sai por uma série de ameaças, perseguições políticas, religiosas, sexuais. Então refugiado cuja vida está em risco, por isso ele abandona seu país e pede refúgio em outro lugar. É o que tem acontecido com os sírios, congoleses e alguns angolanos. Existe uma legislação internacional que prevê que essas pessoas não podem ser extraditadas, como aconteceria com um imigrante ilegal.

Pré-Univesp – Atualmente quantas pessoas a Missão Paz abriga?

Padre Paolo Parise – A Casa do Migrante, um dos setores da Missão Paz, tem capacidade máxima para 110 pessoas. Está lotada. Os maiores grupos nesse momento são do Haiti, República Democrática do Congo, Angola e Nigéria. Estamos acolhendo também grupos da Síria, Togo, Mali, Guiné Bissau e Serra Leoa. Na média temos entre oito e quinze nacionalidades na Casa. Temos ainda atendimento jurídico, médico, psicológico, documentação, encaminhamento para trabalho, cursos profissionalizantes, visitas às famílias, assistência social. É um mundo aqui, por onde passa muita gente, uma média de duzentas pessoas por dia.

Pré-Univesp – A Missão Paz trabalha com voluntários? Como as pessoas podem colaborar?

Padre Paolo Parise – Ela tem 34 funcionários, quinze estagiários e mais de sessenta voluntários. É um time com mais de cem pessoas atuando. Neste momento temos lista de espera para os voluntários. Nossa necessidade atual é de voluntários que falem árabe. Em termos de produtos, precisamos de fraldas, leite em pó, roupas de criança, carrinhos de bebê, bilhetes de metrô unitários, que usamos para nossos residentes irem para uma entrevista de emprego, por exemplo, ou para quem está fazendo um curso. Isso facilita muito.

Pré-Univesp – As viagens dessas pessoas são feitas em condições precárias e existem grupos, os chamados coiotes, que se aproveitam delas. Existe um trabalho mais específico para confortá-las?

Padre Paolo Parise – No caso dos refugiados, em geral, eles quase sempre precisam de um suporte psicológico porque podem carregar traumas de guerra como, por exemplo, presenciar a morte de parentes ou mulheres que sofreram estupros por conta dos conflitos em seus países. Às vezes o marido ficou no país de origem e a mulher está aqui ou vice-versa ou o casal vem, mas o restante da família fica e essa separação é violenta. Há uma série de questões que precisam ser administradas. Em alguns casos limite é necessária internação, uso de medicamentos e, depois, quando se estabilizam, eles voltam para a Missão. Também temos aquelas situações, embora em menor número, em que os refugiados chegam a Santos, escondidos nos contêineres de navios. Chegam a ficar dezoito dias trancados, resultando em quadros de desidratação e outros problemas médicos.

Pré-Univesp – De modo geral, como o senhor avalia a recepção dos brasileiros a essas pessoas?

Padre Paolo Parise – Há uma distância entre a fama do Brasil de país acolhedor e a realidade. Por exemplo, no caso de imigrantes negros existe a questão deles virem de países pobres e ainda a questão racial. Então, neste caso, temos xenofobia e racismo juntos. A gente repara isso, com frequência, em relação aos haitianos. Há relatos deles contando que as pessoas atravessam a rua para não passar perto deles na calçada, ou que ninguém senta perto deles no metrô. Também há preconceito no mercado de trabalho, embora não dê para generalizar. Em algumas empresas, o tipo de pergunta já expressa forte preconceito: “mas são pessoas boas?”, “não são violentos?”. Ora, são seres humanos como nós! Acho que existe este elemento: quase como se não fossem civilizados. Cada preconceito que a gente repara, temos que trabalhar. Por isso as empresas passam por uma palestra, antes de entrar na questão trabalhista, para a sensibilização do empregador. É muito importante. Muita gente sai com outra mentalidade. Acho que é um diferencial da Missão Paz em relação a outras instituições.

Pré-Univesp – A ignorância em relação ao outro, no sentido do desconhecimento, é causadora desse preconceito?

Padre Paolo Parise – Sim. Em geral a primeira reação à chegada de refugiados sírios é: “ah, que fiquem na casa deles!”. Mas quando conhecem a história deles, então percebem que a a sua vinda é questão de vida ou morte. Em relação aos haitianos, as pessoas não sabem que a situação atual deles não tem apenas uma causa natural (o terremoto que arrasou o país em 2010). Existe corresponsabilidade internacional, um processo histórico. França e Estados Unidos exploraram as riquezas dos haitianos durante anos e ainda estão fazendo isso. Mas muitos dizem: “ah, eles não têm vontade de trabalhar, são preguiçosos!”. Existe outro tipo de preconceito, quanto aos números. Às vezes, por curiosidade, pergunto aos jovens de universidades – algumas bastante renomadas  - quantos imigrantes temos no país. Eles me falam “vinte milhões”. Mas, na verdade, o número de imigrantes não chega a um milhão e meio. O Brasil tem um dos índices mais baixos do mundo de recepção de imigrantes, com menos de 1% em relação à população local. Ou seja, se criou um imaginário, quase como se estivesse chegando um milhão de imigrantes por ano! Não! Eu acho que a ignorância é um dos elementos mais fortes do preconceito.

Pré-Univesp – A lei de imigração é de 1980, do final da ditadura militar (1964-1985). Como o senhor avalia o arcabouço legal brasileiro sobre a questão?

Padre Paolo Parise – Há quatro semanas me convidaram para uma audiência pública em Brasília, quando o novo projeto (de lei sobre imigração) deixou o Senado e foi na Câmara Federal. A mudança de paradigma dessa lei é fundamental: deixar de olhar o imigrante a partir da segurança nacional e centrar numa lógica de direitos humanos. Isso é bom. Tem uma série de conquistas, princípios que estão presentes (no projeto de lei). Mas ainda existe espaço para aprimoramentos. Por exemplo, o papel da Polícia Federal. No projeto de lei que está tramitando, a Polícia Federal continua gerenciando toda a tramitação da documentação, quando em muitos lugares do mundo é uma agência civil. No fundo, queira ou não, ainda tem esses resquícios da segurança nacional. Para nós esta é uma mudança necessária, assim como o princípio de não criminalização do imigrante, independente da documentação. Outra questão é que este projeto de lei prevê a criação de um órgão para gerenciar a migração no lugar do Conselho Nacional de Imigração (CNIg) O texto do Projeto de Lei deixa espaço para uma regulamentação posterior e isso é preocupante. O ideal é pensar em um modelo agora.

Pré-Univesp – O senhor vê positivamente a adaptação dessas pessoas no país? Como tem sido a inserção delas no mercado de trabalho, por exemplo?

Padre Paolo Parise – No ano passado foram 2730 contratados através da nossa mediação. Este ano estamos chegando a 1200, pouco menos do que no ano passado por causa da conjuntura econômica. Em geral a gente vê que o imigrante está se dando bem. Seja porque ele vem com uma vontade muito grande: “eu tenho que conseguir dinheiro, eu tenho que mandar” (dinheiro para o país de origem). Eu diria que o número que não dá certo é pequeno. Sempre tem, isso é normal, mas em sua maioria dá certo. Agora, o que me assusta é que sempre aparecem pessoas que oferecem trabalho sem carteira assinada e são verdadeiros exploradores. Se passando por empresas, eles chegam com uma perua, enchem de gente e levam embora. Depois, em vários casos, os imigrantes vêm aqui pedindo socorro porque não foram pagos. Em alguns casos fomos atrás e nem existia escritório, eram de fachada. Acho que neste ponto o Estado deveria fazer algo.

Pré-Univesp – O que o senhor acha que pode contribuir para diminuir o preconceito na sociedade?

Padre Paolo Parise – Eu diria que é preciso trabalhar em níveis diferentes. Em longo prazo, nas escolas, creches, incluindo no programa didático esse novo aspecto: que somos uma sociedade intercultural. Um exemplo que eu acho fantástico é a figura do mediador intercultural. que existe na Itália São figuras novas, criadas em vários ambientes, para mediar a relação com os novos imigrantes. Acho isso interessante. E, em curto prazo, com campanhas de conscientização. Nós mesmos estamos preparando uma para divulgar no metrô. Seu foco é mostrar, por meio de fotografias, que somos frutos da migração e que isso é uma riqueza, não é um problema como sempre é apresentado.