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Nº.61 UNIVERSO Dez.2016 | Jan.2017

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Por Adriana Menezes
13/4/16

As aulas de matemática devem ao mesmo tempo desafiar e intrigar os alunos, essa é uma das ideias defendidas pelo matemático Leo Akio Yokoyama. Graduado pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com mestrado e doutorado na área de educação em matemática, Akio é apaixonado pelo ensino da matemática. Professor do Colégio de Aplicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ele mantém um canal de vídeos com aulas de matemática no YouTube e ainda apresenta o programa “Matemática em toda parte II”, do canal TV Escola, do Ministério da Educação (MEC). Em todos esses canais ele tenta mostrar outros caminhos para o entendimento da matemática, que vão além de decorar tabuadas e fórmulas. Segundo ele, metodologias tradicionais podem eliminar a curiosidade dos alunos. Nesta entrevista para a revista Pré-Univesp, Akio fala sobre ensino de matemática e da importância dessa disciplina na formação geral do aluno. Para ele, a matemática tem um papel fundamental no desenvolvimento de um país: “desenvolver tecnologia nacional significa ser independente”, diz.

 

Pré-Unviesp: Como surgiu seu interesse pela matemática?

Leo Akio: Desde que eu era criança meu pai já me propunha desafios de raciocínio lógico. Eu sempre gostei de pensar sobre eles e tentar resolvê-los sozinho. Na escola eu tinha facilidade nas aulas de matemática e ajudava meus colegas. Mas foi na época de cursinho pré-vestibular que fiz um curso chamado "Matemática aplicada à vida", do professor Aguinaldo Prandini Ricieri, que existe até hoje. Foi graças a ele que decidi fazer faculdade de matemática na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Desde então, sigo apaixonado pelo ensino e pela pesquisa em educação matemática!

PU: Despertar o interesse da criança e do adolescente pela matemática está se tornando mais fácil ou mais difícil no Brasil?

LA: O ideal seria consultar alguém de história do ensino de matemática no Brasil, mas eu acredito que a criança é sempre interessada. É o sistema de ensino que vai retirando essa curiosidade natural dela, infelizmente. O método tradicional de ensino de matemática sempre foi desestimulante e isso vem de muito tempo. Você deve se lembrar que teve que decorar a tabuada, os procedimentos de adição (“vai 1”), de subtração (“pede emprestado”), de multiplicação, de divisão etc. Isso faz com que a matemática se torne chata, muito chata! Quando o aluno chega à adolescência, lá pelo 6º ano do ensino fundamental, essa visão da matemática, que exige decorar os conteúdos, já está consolidada.

PU: Como despertar o interesse pela matemática nos jovens?

LA: Desde a educação infantil é necessário mostrar a matemática como algo que trabalha com o raciocínio lógico. Por exemplo, ensinar o que é um triângulo, um quadrilátero, sucessor, antecessor, número, numeral, algarismo, unidade, dezena, centena, número par, ímpar etc. Isso tudo é importante, mas não basta. Depois que o aluno entender esses conceitos, ele deve ser desafiado com jogos e por meio da resolução de problemas que estimulem o raciocínio. Com questões como: qual o resultado da soma de dois números ímpares? Por que você acha que o resultado é um número par? Será que isso acontece sempre? A soma de três números ímpares pode dar como resultado 10? Resposta: não! Por quê? E existem o que eu chamo de "matemágicas" que servem para intrigar os alunos. Por exemplo:

 

 

PU: Em sua opinião, qual a importância da divulgação científica e da popularização da matemática?

LA: Considero muito importantes. Um bom exemplo de popularização da matemática é o livro de ficção O homem que calculava, de Malba Tahan. Quando eu era adolescente, tentava resolver os desafios propostos. Um dos objetivos do programa “Matemática em Toda Parte II” é justamente mostrar as aplicações da matemática no dia-a-dia e em diversas profissões. 

O programa Matemática em toda parte II é uma série de treze episódios que contextualiza o saber matemático nas diversas atividades cotidianas, desde a maneira como nos alimentamos e mantemos nossa saúde à forma encontrada pelos cientistas para analisar órbitas de planetas, manter satélites artificiais no espaço e investigar o Universo. 

PU: É possível fazer com que o estudante enxergue as aplicações da matemática - da álgebra ou trigonometria, por exemplo - na sua vida prática?

LA: Eu penso que sim, porém é importante destacar que não é porque algo é útil que deve ser estudado e estar no currículo. Por exemplo, as séries de Fourier são importantíssimas na área de música digital, mas nem por isso esse conteúdo é ensinado no ensino básico. Por outro lado, existem assuntos que aparentemente não têm aplicabilidade, mas são extremamente úteis para o desenvolvimento do raciocínio lógico e da argumentação. Por exemplo, entender que a quantidade de números pares é exatamente a mesma de números naturais. Ou que existem conjuntos de infinitos maiores que outros (ver vídeo abaixo). Também acredito que educação financeira é assunto importantíssimo, que deveria estar no currículo.

 

Séries de FourierJean Baptiste Joseph Fourier (1768-1830) chegou até suas séries trigonométricas por volta de 1807, quando estudava a propagação de calor em corpos sólidos. No entanto, somente em 1822 ele publicou sua Théorie analytique de la chaleur, ou Teoria Analítica do Calor. Em seus estudos, Fourier mostrou que qualquer função, por mais complicada que seja, pode ser decomposta como uma soma de senos e cossenos com amplitudes, fases e períodos escolhidos convenientemente. (Fonte: Reginatto, J.J.; Menoncini, L. “Série de Fourier e aplicação”). 

 

PU: Que tipo de benefício o Brasil pode ter se ampliar o número de estudiosos da matemática?

LA: O desenvolvimento do país depende das engenharias, de uma economia estável, das novas tecnologias, do avanço na ciência. Importar tecnologia custa muito caro para o Brasil. Se conseguíssemos desenvolver tecnologia nacional seria muito melhor porque isso nos daria independência. A matemática tem papel fundamental na formação dos profissionais que têm que estar à frente de projetos de inovação tecnológica.

PU: Existem métodos ou recursos específicos que ajudem a fazer isso acontecer?

LA: Existem, claro. O problema é que as pesquisas na área de educação e ensino de matemática não chegam à sala de aula. Os educadores já produziram diversos materiais, recursos tecnológicos, metodologias específicas para melhorar o aprendizado de matemática. O que falta é melhorar a formação dos professores de matemática ainda na universidade. Além disso, o governo precisa oferecer formação continuada. Um exemplo positivo é o Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa (PNAIC), programa do governo federal voltado para professores dos 1º, 2º e 3º anos do ensino fundamental.

 

O Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa é um compromisso formal assumido pelos governos federal, do Distrito Federal, dos estados e municípios de assegurar que todas as crianças estejam alfabetizadas até os oito anos de idade, ao final do 3º ano do ensino fundamental. Nesta idade, as crianças precisam ter a compreensão do funcionamento do sistema de escrita; o domínio das correspondências grafofônicas, mesmo que dominem poucas convenções ortográficas irregulares e poucas regularidades que exijam conhecimentos morfológicos mais complexos; a fluência de leitura e o domínio de estratégias de compreensão e de produção de textos escritos. (Fonte:Ministério da Educação)