Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

Matheus Vigliar
Francisco Eliseu Aquino
29/10/14

O quadro de mudanças climáticas apresentado pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, 2013) prevê um aumento da temperatura média anual (TMA) global entre 1,5ºC e 4,0°C nos próximos 100 anos. O elemento do clima mais empregado na avaliação de mudanças climáticas é a TMA, mas outros parâmetros também permitem esta avaliação. A precipitação pluvial, umidade relativa do ar, além das informações indiretamente derivadas dos anéis de crescimento de árvores (dendrocronologia), testemunhos de fundo marinho, sedimentação de lagos, testemunhos de gelo e do monitoramento do comportamento de massas de gelo devem também ser consideradas em avaliações desta natureza.

Essas observações da Terra e o fato deste aquecimento recente não ser explicado adequadamente somente por fenômenos naturais levaram a comunidade científica a associar tal aumento da TMA ao aumento na concentração de gases de efeito estufa (e.g., CO2, CH4, entre outros). Também, supõe-se que estes gases sejam produtos diretos ou indiretos das atividades humanas associados à industrialização, aumento da área agrícola, entre outros.

Estudos e análises feitas em modelos de circulação geral da atmosfera, realizados nos últimos 15 anos, indicam que o aquecimento observado nas regiões polares, em específico na Antártica, é bem marcado e pode ser atribuído às mudanças climáticas decorrentes das atividades antropogênicas, as quais nos últimos 50 anos superam as forçantes naturais. É importante destacar que o atual quadro de mudanças climáticas implica alterações e efeitos climáticos na Antártica e, como este continente é um importante controlador do clima no planeta, o Hemisfério Sul (HS) deverá apresentar mudanças no clima que serão observadas na América do Sul e no Brasil.

Continente único - A região antártica compreende o continente antártico, arquipélagos e ilhas isoladas ao seu redor e o Oceano Austral. Com 13,6 106 km2, o continente antártico possui 99,6% de sua área recoberta por gelo e é, ainda hoje, uma região pouco explorada. O Oceano Austral, erroneamente chamado de Oceano Glacial Antártico, é considerado o quarto maior oceano do Planeta Terra (em ordem de grandeza, temos: Oceano Pacífico, Atlântico, Índico, Austral e Ártico). É o único oceano não limitado por dois ou mais continentes, circunda completamente o continente antártico e é facilmente identificado por características físicas e químicas tais como temperatura e salinidade de suas massas de água. Suas águas podem propagar-se até latitudes de 35º S a 40º S em alguns setores, como no Oceano Atlântico Sul e ao sul da Austrália.

A Antártica é coberta por um manto de gelo antártico, ou seja, uma massa de neve e gelo com grande espessura e área maior do que 50 103 km2. Esse manto de gelo pode ser dividido em três zonas morfológicas distintas: oriental, que é o mais extensa; ocidental e a região montanhosa da Península Antártica. Cabe destacar que atualmente só existem dois mantos de gelo no Planeta, o antártico e o groenlandês que possui 1,7 106 km2. Suas características físico-geográficas únicas – o  continente antártico é entre todos o que possui maior altitude média (2.500 m) e o mais frio, sendo adicionalmente o mais ventoso e o mais seco – reforçam seu papel como um regulador fundamental do clima na Terra. Assim, a Antártica possui papel importante no balanço de energia do Planeta, pois influencia e também controla a circulação atmosférica nas regiões de latitudes altas e médias do Hemisfério Sul. A precipitação na Antártica ocorre predominantemente na forma de neve, com exceção das chuvas na região antártica marítima. A média de precipitação de neve no interior do platô Antártico é de aproximadamente 50 mm a-1, típica de regiões desérticas.

Medidas que vem do mar – É importante destacar o congelamento da água do mar, que ocorre a -1,83 ºC no Oceano Austral ao redor da Antártica, e a grande variação sazonal na sua extensão fazem com que o mar tenha um papel importante no clima regional e no do HS. Como a região concentra a maior massa de gelo existente na atualidade, a Antártica possui importante controle na circulação atmosférica de média e alta latitude porque essa grande massa fria condiciona a circulação dos chamados ventos de oeste ou vórtice circumpolar (circulação atmosférica em altitude). Estes ventos, por sua vez, determinam uma circulação média atmosférica de oeste que se estende da superfície até a estratosfera no HS.

Estudos recentes apontam que tendências observadas no comportamento do vórtice circumpolar condicionam o comportamento da circulação atmosférica superior, denominado de SAM1. Este vórtice exibe considerável variabilidade intranual e interanual. No seu estado de madura formação e atuação (durante o final do inverno no HS), o VC contribui para uma fase positiva do SAM, que é caracterizado por baixíssima temperatura polar. O SAM possui tendência positiva desde 1958, e os resultados das simulações nos modelos de circulação geral da atmosfera indicam que as causas dessa tendência estão correlacionadas ao aumento na concentração dos gases de efeito estufa, que superam a variabilidade natural do sistema climático.

A ligação entre o vórtice circumpolar, o SAM e o comportamento da temperatura do ar ao nível do mar controlam a variação na extensão do gelo marinho, promovendo interferências no clima do Hemisfério Sul, como por exemplo a quantidade de chuvas, temperatura superficial do ar, extensão do gelo marinho, variabilidade na intensidade e posição dos ciclones extratropicais e incremento da circulação oceânica superficial.

Influência recíproca – Conexões climáticas entre os trópicos e as altas latitudes podem promover mudanças ou variabilidade climática na região antártica, assim como mudanças no clima na região antártica podem influenciar o clima no Hemisfério Sul, contribuindo na variabilidade climática na América do Sul meridional. Sabe-se que parte da variabilidade climática do HS está associada ao SAM, que na sua fase positiva implica aumento na Temperatura Média Anual e diminuição das chuvas na América do Sul meridional. Podemos destacar a atuação dos ciclones extratropicais na região sudeste do Atlântico Sul. Por isso, os estudos sobre os ciclones extratropicais devem ser enfatizados, pois estes sistemas meteorológicos, com frequência de até um por semana durante o inverno, propiciam a entrada de massas de ar frias que afetam intensamente as regiões Sul e Sudeste do país, atingindo eventualmente até mesmo a Amazônia e o Nordeste.

 

As condições no sudoeste do Atlântico Sul, durante e após a passagem dos ciclones extratropicais, são bem distintas. Durante sua passagem, quando a frente fria predomina com os ventos fortes, chuvas, nevoeiros e baixas temperaturas associados, as condições marítimas tornam-se preocupantes; as ressacas nas regiões costeiras do sul e sudeste do Brasil podem ser bastante violentas, destruindo calçadões, vias públicas, quiosques de beira de praia ou outras edificações entre o cordão de dunas frontais e a linha de praia. Também são registrados naufrágios de embarcações pesqueiras pequenas, que podem resultar em óbitos. Além disso, após a passagem dos ciclones extratropicais, é importante analisar as massas de ar em sua retaguarda, porque, dependendo do tipo de massa que esses ciclones movimentam, existem consequências diferentes. São exemplo disso geadas, queda de temperatura e até a precipitação de neve em algumas localidades elevadas no sul do país.





1 SAM, modo anular do Hemisfério Sul, é um modo de variabilidade climática hemisférico. É descrito como o gradiente meridional de pressão entre as latitudes médias (40º S) e a região subantártica (65º S). Este modo tem mantido tendência positiva desde 1960, caracterizando assim um aumento na pressão atmosférica média em 40º S e uma diminuição em 65º S.