Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

Matheus Vigliar
Monica Duarte Dantas
19/11/14

Canudos, 8 de outubro de 1897.

Pretendo seguir hoje para Monte Santo, porque a permanência aqui é insuportável,em vista da situação de Canudos, transformado em um vastíssimo cemitério, com milhares de cadáveres sepultados, outros milhares apenas malcobertos com terra e, o pior de tudo, outros milhares completamente insepultos. Não se pode dar um passo sem se tropeçar em uma perna, um braço, um crânio, um corpo inteiro, outro mutilado, um monte de cadáveres, aqui meio queimado, outro ali ainda fumaçando, outro adiante completamente putrefato, disforme, e, ao meio de tudo, o incêndio e uma atmosfera cálida e impregnada de miasmas pútridos. Por toda a parte, o cheiro horripilante de carne humana assada nos braseiros das casas incendiadas…

(Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 28 de outubro de 1897, apud GALVÃO, Walnice Nogueira, No calor da hora, 2a edição, São Paulo, Ática, 1977, p. 207).

Assim descrevia o tenente Júlio Procópio Favila Nunes, o cenário devastador do Belo Monte (como fora rebatizado o arraial de Canudos por Antônio Conselheiro, quando lá se estabeleceu, em 1893) dias após a rendição final de seus habitantes e a entrada das tropas do governo, em 5 de outubro de 1897.

Quase um ano se passara desde o primeiro enfrentamento dos chamados conselheiristas com uma tropa do governo mandada em seu encalço, em 21 de novembro de 1896. Se essa tropa, que ficou conhecida como primeira expedição, contara com menos de 120 homens, a quarta e última expedição chegou a dispor, ao longo de todo o período que se manteve em combate direto contra os habitantes do arraial (de 27 de junho até o começo de outubro), de um efetivo de mais de dez mil homens. Um número absolutamente impressionante se considerarmos, por um lado, que o efetivo do exército brasileiro neste período era de 25 mil homens, e, por outro, que a população do arraial, segundo as pesquisas mais recentes, não teria ultrapassado muito a marca dos dez mil habitantes (aí incluídos homens, mulheres e crianças).

Levando-se em conta, então, tais números, não surpreende que o exército brasileiro, as lideranças políticas da República, os correspondentes dos jornais (como o referido Favila Nunes e, é claro, Euclides da Cunha), e todo o público leitor brasileiro e estrangeiro tenham ficado absolutamente impressionados (e assustados) com a capacidade de resistência daquela população, de homens livres pobres, ex-escravos (os “13 de maio” como eram chamados) e indígenas, que desde de 1893 vinha migrando para o arraial do Belo Monte, estabelecido pelo Conselheiro em junho daquele ano.

O sertão do Conselheiro

Se Antônio Vicente Mendes Maciel, mais conhecido por todos como Antônio Conselheiro, era cearense, de Quixeramobim, as paragens do nordeste da Bahia não lhe eram estranhas; ao contrário. Sabe-se que, pelo menos, desde 1874, ele peregrinava pelas vilas e arraias das comarcas de Monte Santo (onde ficava Canudos), Itapicuru e Inhambupe, na Bahia, e mesmo por localidades da província de Sergipe –região que o grande estudioso de Canudos, José Calasans, chamou de “o sertão do Conselheiro”.

Ao longo desses 20 anos de peregrinações, até a fundação do arraial, Antônio Vicente Mendes Maciel, como tantos outros beatos e conselheiros que o precederam (figuras tradicionais no catolicismo popular brasileiro), costumava reformar ou construir igrejas, capelas, cemitérios e até açudes com a assistência de algumas dezenas, ou uma centena, de seguidores, e o auxílio das populações das vilas e povoados por onde passava. Além disso, ele fazia sermões, prédicas e ladainhas para uma audiência atenta, composta por homens e mulheres pobres, libertos, escravos e mesmo indígenas das localidades.

Se durante 20 anos o dia a dia de Antônio Conselheiro fora esse, de peregrinar de vila em vila, arraial em arraial, o que teria acontecido, então, em 1893, para mudar tão radicalmente seu cotidiano e aquele de seus seguidores? A resposta não está necessariamente em sua aversão pela República (como tanto já se repetiu), e tampouco apenas em seu magnetismo como líder religioso. Acontecimentos que lhe escapavam estavam no cerne dessa transformação.

Desde pelo menos a década de 1870 a população pobre vinha sofrendo, cada ano mais, com a pressão dos fazendeiros pelo controle da terra e, em uma região afetada continuamente por secas, pela restrição do acesso a áreas mais úmidas, vitais não somente para o plantio, mas para a sobrevivência do gado e outras criações. Grandes e médios proprietários expulsavam agregados, moradores e posseiros ou forçavam-nos a trabalhar vários dias da semana em troca da manutenção de sua rocinha, sua casa e do acesso a um riacho ou olho d’água para dar de beber a seus animais. Tudo isso, claro, em uma conjuntura em que os fazendeiros contavam, cada vez menos, com a mão de obra escrava, cada ano mais cara e mais difícil de obter (há que se lembrar que o tráfico africano fora proibido em 1850).

As crescentes dificuldades, porém, não dão conta, sozinhas, de explicar a reviravolta de 1893. Outro elemento é fundamental para a compreensão do ocorrido: a tradição, no século XIX, das populações livres pobres, libertas, escravas e mesmo indígenas de protestarem em defesa de seus direitos e de seu modo de vida.

Tempos de revolta

Hoje em dia, ao contrário do que se repetiu por muitas décadas, sabemos que o segundo reinado foi tudo, menos um tempo de paz e tranquilidade; sedições e motins perturbaram a chamada ordem nas mais diferentes províncias do Brasil. Foram motins como “A carne sem osso e farinha sem caroço”, de 1858, em que a população de Salvador se levantou em defesa do controle dos preços da carne e da farinha, os dois gêneros básicos de sua alimentação; e sedições como o “Ronco da abelha” (ou “Guerra dos marimbondos”), que levantou, em 1851-52, dezenas de vilas e povoações em cinco províncias do país, com o objetivo de garantir que os novos decretos sobre o registro civil de nascimentos e óbitos, e de realização do primeiro censo nacional não fossem efetivados. E, finalmente, a sedição do “Quebra-quilos”, ocorrida em 1874-75, quando os habitantes da Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Alagoas se rebelaram contra a implementação do sistemas métrico-decimal, da nova lei de recrutamento e contra a cobrança de um novo imposto, o chamado “imposto do chão”. Vale destacar que, em todos esses três casos, que configuram apenas uma pequena amostra do número de revoltas e protestos que ocorreram então no país, a população saiu vitoriosa, alcançando os objetivos que tinham motivado os levantes.

Pois bem, em 1893, mais uma sedição abalou a ordem institucional, mobilizando as populações de diversas vilas do Estado da Bahia. Mais uma vez, as autoridades tentavam impor a cobrança do “imposto do chão”, que, em razão dos protestos de 1874-75, nunca fora implementada. Essa nova taxa recaía sobre todos aqueles que fossem vender gêneros nas feiras semanais, eventos cruciais para a população que ali vendia, por exemplo, seu excedente de farinha de mandioca para comprar os gêneros que não produzia. O imposto previa que, quem quer que fosse à feira comerciar, teria que pagar um montante apenas por colocar seus gêneros à venda.

Euclides da Cunha, em sua obra, Os Sertões, registrou a resistência do Conselheiro à cobrança desse novo imposto na vila do Bom Conselho, resistência essa que, segundo o autor, teria motivado o envio de uma tropa policial em seu encalço, tendo como consequência o enfrentamento, em maio de 1893, das forças governistas com o Conselheiro e seus seguidores, na região de Masseté. Este choque, para Euclides da Cunha, fora o ponto de virada a explicar a transformação das práticas de Antônio Vicente, ou seja, o fim das peregrinações e a fundação do arraial.

Documentos existentes no Arquivo Público do Estado da Bahia, contudo, mostram que não só o Conselheiro não fora figura central nos protestos, como eles começaram a ocorrer sem que ele estivesse sequer presente. Em 10 de abril de 1893, a população da vila do Soure (comarca de Itapicuru, região que o Conselheiro por vários anos visitara para fazer sermões e auxiliar na reforma de igrejas e afins) ocupou a feira da vila e destruiu as “tabuletas” que seriam afixadas informando do novo imposto. Tomaram parte no movimento pequenos roceiros, artesãos e até mesmo negociantes.

Os protestos duraram mais de duas semanas e terminaram com parte da população se evadindo da vila frente à chegada de um tropa do governo, enviada para restaurar a ordem. Os sediciosos foram objeto de denúncia do promotor, que arrolou mais de 33 pessoas, entre elas Antônio Vicente Mendes Maciel. O Conselheiro, porém, não foi processado, pois o juiz considerou-o inocente, uma vez que não apenas ele chegara depois de iniciados os protestos, como também por ter sido de grande valia, no dia 17 de abril (a feira ocorria semanalmente), na contenção da população que tentava agredir as autoridades.

Os protestos contra o “imposto do chão” não tinham no Conselheiro, portanto, sua figura de inspiração ou liderança. Contudo, na iminência da chegada das tropas, Antônio e seus seguidores se misturaram com os sediciosos, que dali se dirigiram a vilas próximas para tentar impedir a efetivação da cobrança. Não há como negar que a perseguição pelas forças do governo e o choque de Masseté foram essenciais para a fundação do arraial do Belo Monte. Mas, no que tange ao fluxo constante de migrantes para o arraial, dois elementos devem ser considerados conjuntamente: por um lado, claro, o magnetismo do Conselheiro como líder religioso e, por outro, a força de atração que exercia sobre posseiros, agregados, ex-escravos, indígenas e até mesmo pequenos proprietários, diante da possibilidade de migrar para uma localidade em que pudessem retomar seu cotidiano sem a ameaça das autoridades, e com maior liberdade para plantar suas roças e criar seus animais.

Da fundação, em junho de 1893, até a primeira expedição, em novembro de 1896, as pesquisas mostram que a vida no arraial assemelhava-se muito ao cotidiano de qualquer outra vila e povoado daqueles sertões, com uma grande diferença: sua independência em relação aos fazendeiros e autoridades governamentais. Desnecessário dizer que tal independência não agradava aos potentados locais, incômodo que, agravado pelas disputas políticas entre a elite baiana, está no cerne da guerra que viria a dizimar os conselheiristas e fazer sumir nas chamas seu precioso arraial.