Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

Crédito da imagem: Jairo Costa
Jairo Costa
27/1/16

Oculta pelo largo e verde manto da floresta, uma teia de narrativas orais se perpetua por gerações, mata adentro, na grande Amazônia brasileira. São contos, “causos”, lendas e mitos que revelam crenças, temores e uma espantosa visão de um mundo fantástico, encantado e misterioso. Em pleno século XXI, por toda a mata, histórias de licantropia1, monstros, visagens e assombrações se multiplicam, constituindo um belo e original imaginário mítico, pouco conhecido pelo grande público. Das centenas de narrativas que catalogamos ao longe de vários anos de pesquisa, selecionamos quatro histórias com ocorrência em toda a Região Norte do país e que dão conta de mostrar quão extraordinárias são as criaturas que habitam o inconsciente coletivo do amazônida em sua particular floresta secreta.

A Cobra-Grande de Belém

Cobra-Grande é uma das criaturas encantadas mais temidas da Floresta Amazônica. Também conhecida como mãe do rio, Mãe-d’agua, Cobra-Norato, esta gigante da floresta já aterrorizou exploradores, índios e ribeirinhos de todo o norte do país. Boa parte dos relatos sobre a Cobra-Grande a descrevem como uma víbora aparentemente comum que misteriosamente adquire tamanho monstruoso, migrando da floresta para ocupar os rios da hileia. É corrente a narrativa de que a cidade de Belém foi fundada sobre a morada de uma gigantesca cobra, possivelmente uma sucuri encantada e que, se um dia a víbora se mover, a cidade inteira ruirá, tragada para as profundezas do rio Guajará.

Segundo a lenda, lá no século XVII, os fundadores da cidade de Nossa Senhora de Belém do Grão-Pará teriam erguido a primeira fortificação da cidade (Forte do Presépio, também conhecido como Forte do Castelo) e a Igreja da Sé justamente sobre a toca da víbora. Dizem que a cobra, em vez de fugir e procurar outro abrigo, ficou ali mesmo, espreitando os humanos e alimentando-se deles. Escravos, possivelmente índios Tupinambá que trabalhavam na construção do templo, eram suas vítimas mais comuns. Uma epidemia de sarampo durante a construção da igreja, no ano de 1748, teria potencializado a voracidade da cobra, pois muitos índios acabaram morrendo, vitimados pela grave enfermidade, e seus restos mortais teriam servido de refeição para o monstro gigante.

Assustadoramente, a Cobra-Grande de Belém continuou crescendo através dos séculos, sem limites, e sua cabeça estaria hoje localizada bem abaixo do altar da Igreja da Sé e sua cauda no subsolo da Igreja de Nossa Senhora do Carmo, na Cidade Velha.

A Matinta Perera

Não existe uma única pessoa nativa da Amazônia que não tenha congelado ou estremecido ao ouvir falar da pavorosa Matinta Perera, ser maldito que vaga pela noite amazônida, imprimindo medo com seu assovio assustador: fffiiiiiiiiiiiiitttttttt!!! Narrativas apresentam-nos uma entidade que vive a aterrorizar moradores de vilas, povoados e cidades da região. Segundo consta, a Matinta Perera é uma maldição que pode transformar a pessoa enfeitiçada nos mais variados tipos de animais (licantropia) como gato, cavalo, cachorro, boto, morcego, porco, coruja rasga-mortalha e até pato(!). Existem centenas de relatos que tratam deste ser por todo o estado do Pará. As descrições para sua forma também são várias, porém o assovio é sua marca maior e principal característica.

Ninguém sabe dizer ao certo se é um pássaro ou uma velha. O que se sabe é que quando ela assobia, todos se aquietam, amedrontados. Em cada localidade, as pessoas atribuem a fama de Matinta Perera sempre a alguma senhora de idade. Se houver alguém que não costuma conversar muito e vive sozinha na mata, essa certamente cairá na boca do povo como a Matinta do local. Dizem que à noite, quando sai para cumprir seu fado, a Matinta sobrevoa a casa daqueles que zombam dela e a tratam mal durante o dia, assombrando os moradores da casa e assustando cachorros, cavalos e criações de galinhas e porcos.

A Matinta Perera gosta muito de mascar tabaco; quando lhe prometem o fumo, ela sempre vai buscar no dia seguinte, às primeiras horas da manhã. Por isso, para descobrir a verdadeira identidade dela, ao ouvir o assobio na mata, deve-se gritar bem alto: “vem buscar tabaco!”. No dia seguinte, bem cedinho, a primeira pessoa que bate à porta do curioso vai logo dizendo: “bom dia, vim aqui buscar o tabaco que o senhor me prometeu noite passada!”. É preciso arrumar rapidamente um pedaço de fumo para a visita indesejada, porque, se não der o que prometeu, a Matinta Perera volta à noite e não deixa mais ninguém dormir. Outro modo de descobrir a verdadeira identidade de uma Matinta é por meio de uma simpatia: à meia-noite, deve-se enterrar uma tesoura virgem, aberta, com uma chave e um terço sobrepostos a ela. Garantem que a Matinta não consegue se afastar do local de maneira alguma.

Alguns relatam que já tiveram a infeliz experiência de se deparar com a visagem dentro do mato. A maioria a descreve como uma mulher velha com os cabelos completamente despenteados e com o corpo suspenso, flutuando no ar com os braços erguidos. Ao ver uma Matinta, dizem os experientes, não se consegue mover um músculo sequer. A pessoa fica tão assustada que permanece completamente imóvel, paralisada de pavor!

E quando a Matinta Perera sente que sua morte está próxima, sai vagando pelas redondezas gritando bem alto “Quem quer? Quem quer?”. Quem cair na besteira de responder, mesmo brincando, “eu quero!”, fica com a maldição de virar Matinta. E assim o fardo passa de pessoa para pessoa.

O boto encantado

Oriundo da imensidão dos rios da grande Floresta Amazônica, o boto, também chamado de golfinho da Amazônia, é personagem de uma das mais controversas lendas de toda a região e sua história é repleta de nuances fantásticas. Existem pelo menos duas espécies distintas de boto na Amazônia: o boto-cinza, ou tucuxi, e o boto-cor-de-rosa, também conhecido como boto vermelho. Segundo a lenda, o boto é um cetáceo que vira gente! Sim, gente! Depois de visitarmos várias histórias nas quais encontramos transformações de pessoas nos mais diversos tipos de bichos, com a lenda do boto nos deparamos com uma situação contrária, o boto vira um homem. São incontáveis as histórias do boto. Cada vilarejo tem pelo menos uma versão de seu aparecimento. Dizem que em noites de luar ele sai dos rios e igarapés e, em uma metamorfose sem igual, adquire a forma de homem. E não apenas um simples homem. Segundo testemunhos, não satisfeito em adquirir a aparência de um ser humano, o boto assume ares de um autêntico boêmio conquistador. Com roupas brancas e chapéu de palha na cabeça para ocultar o buraco por onde respira, ele invade vilas à procura de, nesta ordem, mulheres, festas e bebedeira.

Ao adentrar nos festejos dos povoados, o boto logo encanta a todos com sua beleza e sua pose. Ele se aproxima das mais belas donzelas e as tira para dançar, seduzindo-as. Muitas vezes, invariavelmente, as moças caem no seu encanto e são levadas para o fundo dos rios, onde existe seu reino encantado. Quando não são levadas para a sua fortaleza nas águas profundas do grande rio Amazonas, elas são fecundadas e seus bebês identificados como “filhos do boto”.

O Mapinguari

O Mapinguari é o equivalente brasileiro do “abominável homem das neves”. Na cultura amazônica ele representa o mesmo que o Yeti representa para os nepaleses e tibetanos, e o famoso Pé-Grande (Big Foot) para os habitantes dos Estados Unidos e Canadá. O mesmo vale para o mítico Orang Pendek, criatura misteriosa que sonda a ilha de Sumatra, na Indonésia.

Ele seria um monstro, uma criatura habitante das selvas mais profundas e impenetráveis da Amazônia. Nossa “fera particular” está envolta em uma neblina de enigmas e mistérios; criptozoólogos seguem seus rastros já há décadas e continuam surgindo relatos de pessoas que afirmam ter visto o misterioso ser, superando a casa das centenas de testemunhos.

Dizem que o Mapiguari é muito mais que uma lenda. Não são poucas as pessoas que acreditam em sua real existência. Os pesquisadores que se dedicam a investigá-lo apresentam duas hipóteses divergentes para a sua origem. Alguns defendem que a criatura seria um símio, algum tipo de gorila ainda não catalogado pela ciência. Outra corrente crê que ele seja um parente perdido da preguiça-gigante (o megatério), que viveu há aproximadamente 20 mil anos nas Américas do Sul e do Norte, sobretudo na Floresta Amazônica. O megatério era do tamanho de um elefante de porte médio, e passava o dia todo comendo folhas de árvores e arbustos, utilizando sua língua comprida para obtê-las e manejando os galhos com suas garras grandes e fortes.

Segundo a lenda contada por caçadores, ribeirinhos e seringueiros, o Mapinguari seria um monstro gigantesco que habitaria furtivamente as áreas mais inacessíveis da floresta. A crença popular dá a ele o posto de guardião da mata (juntamente com o Curupira). Seria dotado de uma espessa carapaça. Alguns dizem que sua pele seria semelhante ao couro de um jacaré, outros o descrevem como possuidor de uma casca grossa como a de uma tartaruga. Ele teria também uma espessa pelagem avermelhada e uma forte e opulenta constituição física. O Mapinguari já foi descrito por muitos como um devorador de caçadores, índios, exploradores e demais nativos da selva. As descrições de suas características físicas tornam-se ainda mais assustadoras quando nos deparamos com relatos de que cada passo do Mapinguari pode atingir três metros e que sua iguaria favorita seria a cabeça de suas vítimas, geralmente caçadores sem sorte que cruzam o caminho deste ser encantado.

Mais abissal é a descrição de algumas outras testemunhas que o descrevem como uma criatura possuidora de apenas um grande e terrível olho na testa (ciclope), detentor de uma bocarra vertical (dentada), estendendo-se da altura do que seria seu pescoço até o umbigo. Outro detalhe pitoresco é seu terrível mau cheiro; a criatura teria um cheiro avassalador que exala floresta adentro. Com altura de 2,5 até seis metros, o Mapinguari teria hábitos diurnos, reservando a noite para o descanso. Relatos de caçadores contam que o misterioso ser, ao deslocar-se pela floresta, deixa pegadas na forma de pilão (semelhante à dos elefantes) e, aos gritos, com as enormes garras que traz nas patas, derruba as árvores que atrapalham seu caminho.

Ele vem sendo observado há centenas de anos (existem relatos de encontro com este ser desde o século XVIII) e, ainda hoje, em pleno século XXI, inúmeras são as expedições que partem de Belém (PA), de Manaus (AM), de Macapá (AP) e de Rio Branco (AC) em busca deste mítico ser oculto nas selvas brasileiras. Exploradores solitários, cientistas renomados e até emissoras de TV estrangeiras já se embrenharam na selva atrás deste animal, como o canal norte-americano National Geographic Channel. 

Créditos das imagens: Jairo Costa



1 No folclore, licantropia é a capacidade ou maldição caída sobre um homem que se transforma em um lobo.