Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

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Por Márcio Derbli
12/8/15

O aumento de renda da população, a mudança nos hábitos de consumo de alimentos e o ambiente social, econômico e político têm gerado um aumento importante nos índices de indivíduos acima do peso ou obesos no Brasil e também na América Latina, uma tendência já conhecida da Europa e Estados Unidos já há alguns anos. Atualmente em nosso país, um em cada dois adultos e uma em cada três crianças estão acima do peso ou obesas. Iniciativas como programas públicos e legislação procuram frear a epidemia, mas precisam lidar também com a pressão de grupos econômicos. A pesquisadora Maria Laura da Costa Louzada, do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens), da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP/USP), participou da equipe que assessorou o Ministério da Saúde na elaboração do “Guia Alimentar para a População Brasileira”. Nesta entrevista para a revista Pré-UNIVESP, ela fala sobre esse projeto e comenta a epidemia de obesidade que o país vivencia, suas principais causas e como as políticas públicas têm lidado com o problema.

Pré-Univesp – Podemos dizer que vivemos uma epidemia de obesidade no Brasil? Quais indicadores definem uma epidemia deste tipo?

Maria Laura Louzada – Na verdade hoje a gente usa o termo epidemia, mas ele é um termo que veio emprestado das doenças infecciosas, as doenças que tinham uma “explosão rápida”, em curto período de tempo. Então a gente não tinha outro termo porque também não tínhamos um problema com a obesidade, nem com doenças crônicas como diabetes ou doença cardiovascular. Então quando começamos a estudar esse problema, emprestamos este termo que quer dizer uma explosão rápida da prevalência de obesidade. A grande diferença é que, ao contrário de uma doença causada por vírus, por exemplo, a obesidade é crônica. Depois que ela se instala, provavelmente irá acompanhar a pessoa pela vida inteira.

E, sim, estamos vivendo uma epidemia de excesso de peso no Brasil. As frequências, tanto de excesso de peso (que seria uma obesidade mais leve) tanto de obesidade, mais que quadruplicaram nas últimas décadas. E temos evidências em todas as faixas etárias a partir dos cinco anos. Não temos ainda evidências concretas de que os bebês estejam aumentando o peso, mas dos cinco anos em diante, todas as faixas etárias em ambos os sexos tiveram uma explosão rápida nas últimas três décadas. A última pesquisa do IBGE (Pesquisa de Orçamentos Familiares 2008/2009) mostra que metade da população adulta tem excesso de peso, e desses, 15% já estariam no grau mais grave, ou seja, de obesidade. E entre as crianças, um terço já está com excesso de peso.

Pré-Univesp – Quais as principais doenças relacionadas à obesidade?

Maria Laura Louzada – A obesidade é uma doença em si e ela é, digamos, o meio do caminho para outras doenças, que nós chamamos de doenças crônicas, como o diabetes, as moléstias cardiovasculares, alguns tipos de câncer e algumas doenças renais. Então, de fato, ela é um fator de risco muito forte.

Pré-Univesp – Em termos financeiros, qual é o impacto da obesidade e das doenças relacionadas?

Maria Laura Louzada – Esses estudos são bem recentes. No último Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva (realizado em Goiânia, no final de julho deste ano) um dos trabalhos premiados foi justamente sobre esses custos. Tem um custo direto sobre o aumento da prevalência populacional de obesidade e os custos do sistema de saúde com as doenças crônicas, que é mais difícil de medir porque são indiretos, mas existem várias evidências que mostram que (esses custos) sobrecarregam o Sistema Único de Saúde (SUS).

Pré-Univesp – Na América Latina, 56% dos adultos apresentam sobrepeso ou obesidade, enquanto a média mundial é de 34%. Por outro lado, o problema da fome na região diminui pela metade nos últimos vinte anos. Estamos comendo mais, mas comendo errado?

Maria Laura Louzada – A epidemia da obesidade começou mais cedo nos países mais ricos. Logo depois da industrialização a Europa e EUA começaram a apresentar elevação das prevalências. A América Latina não tinha este problema, assim como a África e Ásia. A partir da década de 1980 este problema começou a aparecer em países da América Latina, os de renda média, porque são os países que lidam com a desnutrição e fome associadas à pobreza, mas que já têm uma população com acesso (aos alimentos), bem diferente de alguns países na África, que apresentam outra configuração. Mas, cada vez mais, aparece por lá também, por exemplo, na África do Sul. No último Relatório de Segurança Alimentar da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) o Brasil não aparecia no mapa da fome. Como isso é medido? Não quer dizer que não há indivíduos passando fome, mas é feito um cálculo para verificar qual o percentual de pessoas que estão comendo do que deveriam para se manter vivas, considerando como aceitável um indicador abaixo de 5%. E todos os países da América Latina têm melhorado esses índices, com o aumento da renda e diminuição da desigualdade social.

Pré-Univesp – Quais fatores contribuem para o aumento da prevalência da obesidade?

Maria Laura Louzada – Podemos dizer que a obesidade tem causas proximais ou diretas e as causas ambientais, ou distais. A causa direta da obesidade é um balanço errado entre o que a gente come e o que a gente gasta. Então se eu comer mais e me exercitar menos, não necessariamente com atividades físicas, mas no dia a dia, durante a vida toda, eu vou ter aumento da adiposidade, da gordura corporal e aumento do ganho de peso. E também o contrário, se eu comer menos do que preciso para manter este peso, eu vou perdê-lo. A questão é que, por muito tempo nós olhamos a obesidade por este foco individual, as pessoas são obesas porque elas comem muito e se exercitam pouco. E por muito tempo a medicina ficou dando esta mensagem: como combater a obesidade? Comendo menos e se exercitando mais! Depois vários estudos mostraram que existe uma questão ambiental, uma questão de acesso a alimentos saudáveis, acesso a locais para as pessoas se exercitarem, mesmo caminharem, tem uma questão da renda, da globalização, da abertura de mercado, que vai muito além da escolha individual, de comer mais ou menos. Tem toda uma cadeia causal que começa lá com a globalização, com o aumento da renda, passa pelos ambientes locais – se eu não tenho como comprar alimentos saudáveis, vou ter que comer outra coisa, não é? – e até a questão individual, mas por muito tempo a gente parou por aí, como se fosse uma simples escolha.

Pré-Univesp – Especificamente no Brasil, o que você entende como mudanças de hábitos que contribuíram com a epidemia de obesidade?

Maria Laura Louzada – Nós temos pesquisas desde a década de 1970 que coletam dados sobre as compras das famílias no Brasil. Olhando a cesta média de compras do brasileiro a gente vê que, desde 1970 até a última pesquisa, que foi em 2008/2009, teve uma diminuição das compras de alimentos in natura, minimamente processados (frutas, verduras, cereais principalmente, carnes, leite) e também os ingredientes culinários que são usados para preparar, como o açúcar, óleo, sal etc. Na outra ponta aumentou a aquisição de alimentos prontos, dos ultraprocessados, incluindo refrigerantes, bolos, todos esses panificados, pratos congelados, carne processada, que já vem pronta. Então houve uma troca, e é interessante a gente ver, porque as ciências da nutrição sempre disseram que a culpa da obesidade é do consumo de açúcar e de gordura. Mas analisando essas pesquisas, vemos que o brasileiro está comprando cada vez menos óleo e açúcar, mas está engordando. Comprando menos sal e desenvolvendo mais hipertensão. Então alguma coisa estava errada no nosso jeito de olhar a alimentação. Na verdade, estamos trocando nossas fontes de gordura, e açúcar. Eles estão saindo das preparações culinárias e migrando para os alimentos processados.

Pré-Univesp – O jornal The New York Times publicou uma matéria sobre a Global Energy Balance Network (Rede Global de Equilíbrio Energético), uma organização científica (com pesquisadores de universidades americanas) patrocinada pela Coca-Cola, que defende que as bebidas açucaradas não são as vilãs da obesidade, mas sim a falta de exercícios.

Maria Laura Louzada – Já faz um tempo que eles fazem essas campanhas para as pessoas se mexerem mais. Obviamente que atividade física promove saúde, mas não há evidências que, de fato, previna a obesidade. A atividade física faz bem para o organismo, melhora a pressão arterial, mas em relação ao peso a influência da alimentação é muito mais forte do que a atividade física. É isso: a indústria quer tirar o foco da alimentação.

Pré-Univesp – A publicidade de alimentos, principalmente a voltada para o público infantil, tem impacto sobre a epidemia?

Maria Laura Louzada – Com certeza! Nesta rede de causas, (a publicidade) seria uma das causas ambientais. Por exemplo, o mundo todo é um só, mas a Suécia proíbe a publicidade e o Brasil não. Com certeza os ambientes nos quais essas crianças vivem são diferentes e as influenciam de formas diferentes. Vários estudos mostram que a criança – até pela definição do que é ser criança, que não tem maturidade suficiente para lidar com a informação da publicidade- muda seu comportamento e é influenciada pela publicidade. E a publicidade não é um problema individual. As empresas querem dizer “Ah, os pais não desligam a TV porque não querem”. Não é verdade, porque a criança não é uma extensão do pai, ela é um ser autônomo. E a publicidade não se resume apenas à TV. Tem os outdoors, tem o que a gente ouve, o coleguinha que vê televisão e chega falando. Então, a regulação da publicidade é uma pauta urgente no combate à obesidade infantil.

Pré-Univesp – Qual é sua avaliação sobre a legislação brasileira no que se refere ao combate à obesidade? 

Maria Laura Louzada – Acho que o Brasil tem vários pontos extremamente avançados. A gente poderia dividir as políticas em três áreas: a educação, o apoio e a proteção. Na questão da educação acho que nós estamos muito avançados com o Guia Alimentar para a População Brasileira, que foi reconhecido como extremamente pioneiro na nova abordagem de combate à obesidade. Mas o maior desafio, na questão da educação, é o tamanho do país e sua heterogeneidade. Como é que a gente vai levar um guia para 200 milhões de pessoas? Isso é bem difícil. Na questão do apoio acho que o Brasil também se destaca, principalmente em relação à alimentação escolar. Temos uma legislação que é referência no mundo, que favorece o consumo de alimentos in natura, proíbe a compra de vários alimentos processados, inclusive os refrigerantes e ainda tem uma parceria com a agricultura familiar que acaba estimulando o produtor local. Onde ainda pecamos, embora ainda não seja provado e alguns países estejam testando, é na taxação de alguns alimentos, como os refrigerantes, para ver como o aumento dos tributos impacta no consumo da população. E, claro, na publicidade estamos completamente atrasados. Em 2006 a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) fez uma lei que regulava publicidade para crianças, mas uma disputa de poder com a indústria fez com o texto fosse deixado de lado.

Pré-Univesp – O que é o” Guia Alimentar para a População Brasileira” (lançado no ano passado) e quais são as suas propostas?

Maria Laura Louzada – O que é um guia? Esse foi um debate muito grande quando a gente começou. Guia é uma política pública? É um documento técnico? Então chegamos à conclusão de que um guia não é uma política pública, ele tem um alcance mais restrito do que isso. Ele também não é um documento técnico porque a gente queria que ele avançasse, que chegasse às pessoas. Este “Guia” é, na verdade, um instrumento de comunicação. Na verdade a força do Guia, como ele não é uma política, é apoiar as políticas. Por exemplo, como ele estimula a alimentação in natura, então isso pode ser usado como embasamento para uma política que apoie a agricultura familiar. Digamos que ele vem “um passo antes” da política, ele é o posicionamento oficial do Ministério da Saúde sobre o que se considera uma alimentação saudável.

Pré-Univesp – Como a sociedade, em termos gerais, pode utilizar as orientações do Guia? Para qual público ele é voltado?

 Maria Laura Louzada – O Guia é voltado para o público em geral, essa era a ideia, falar de alimentação para quem, não necessariamente, trabalha com alimentação. Mas, é claro, nós temos plena consciência de que a forma que isso chega às pessoas é através dos profissionais. Por exemplo, toda escola tem que ter um responsável técnico pela alimentação. Então, a partir desse profissional a ideia seria que o conteúdo do Guia entrasse não somente na formulação do cardápio, mas também como atividade de formação para as crianças, junto com os professores. Nos postos de saúde, que têm a Estratégia da Saúde da Família, que se propõe a promover saúde para a comunidade, fazer chegar essa informação aos Agentes Comunitários de Saúde seria fantástico. E também por meio de parcerias com instituições de trabalhadores, que fornecem alimentação. Hoje tem o Programa de Alimentação do Trabalhador que abarca uma parte significativa dos adultos. Então, eu acho difícil a gente chegar lá sem as instituições, exatamente por conta do tamanho do país.  

Crédito da imagem: ASCOM FSP/USP – Adriana do Prado