Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

Por Victória Flório
25/3/15

Cyrano de Bergerac (1619-1655), escritor e espadachim francês, imortalizado na obra de Edmond Rostand (1869-1918), foi um dos primeiros autores a imaginar uma viagem do homem à lua. Na obra História cômica dos estados e impérios da lua, publicada em 1657, o homem chega à lua utilizando máquinas que poderíamos comparar com um balão ou mesmo um foguete. Bergerac nos dá um, entre tantos exemplos na literatura, do desejo do homem de viajar, conhecer outros lugares, e de como confia na tecnologia para realizar o sonho de ir cada vez mais longe.

As tecnologias aplicadas aos transportes nos permitiram conquistar os quatro cantos do planeta em uma história atrelada ao desenvolvimento das estradas (veja box), à domesticação de animais, da invenção da energia a vapor utilizada para movimentar locomotivas, barcos e do motor à combustão dos automóveis. Os homens se movimentam por terra, pela água ou pelo ar e fomos além, até os limites do Sistema Solar, viajando cada vez mais rápido graças às tecnologias cada vez mais avançadas.

Cavalos e rodas

A domesticação de cavalos e a invenção da roda mudaram a maneira de nos movimentar. Os cavalos, que já foram caçados para servir de comida, como conta Judith Herbst, no livro The history of transportation: major inventions through history(2006), foram domesticados por volta de 4 mil a.C. A invenção da roda, por volta de 3500 a.C., na Mesopotâmia – região onde hoje se localizam o Iraque e leste da Síria – não tinha o objetivo de transportar objetos ou pessoas porque, até então, os mesopotâmicos moviam pedras e outras coisas pesadas usando uma espécie de trenó puxado por carregadores.

Segundo Herbst, levou um tempo até que os carregadores fossem substituídos por rodas e ainda mais tempo até esses ‘veículos’ transportarem pessoas, que antes viajavam no lombo de bois. A autora acredita que uma das razões pelas quais as rodas não foram usadas para transporte em um primeiro momento é a geografia das cidades mesopotâmicas e egípcias, próximas a grandes rios navegáveis, o Tigres, o Eufrates e o Nilo.

Quando os mesopotâmicos inventaram a carruagem, em 3000 a.C., primeiramente usadas em procedimentos funerais e com objetivos bélicos, é que acontece uma revolução no transporte. Utilizadas até meados do século XX, um estudo sobre o tráfego de carruagens na cidade de Nova York em 1907 revelou que a velocidade média delas era de 17 km/h.

Trens

A Revolução Industrial – lenta transformação do processo de produção entre o fim do século XVIII e início do século XIX – representou também um divisor de águas na história dos transportes especialmente pela disseminação do uso do ferro e da energia a vapor. O motor a vapor, aperfeiçoado e patenteado em 1781 pelo engenheiro escocês James Watt (1736-1819), transforma energia térmica em energia mecânica. A tecnologia foi aplicada em veículos de tração, locomotivas, barcos etc.

As ferrovias detiveram o monopólio do transporte terrestre até a introdução do automóvel, no início do século XX. Judith Herbst conta que as primeiras locomotivas eram lentas, mas adequavam-se perfeitamente ao transporte de carvão nas minas inglesas. Em 1814, o engenheiro mecânico inglês George Stephenson construiu uma locomotiva que transportava 30 toneladas do minério com a velocidade de 6 km/h. Ao longo do tempo, essa velocidade vai aumentando. O trem elétrico alemão Siemens & Halskie, por exemplo, o meio de transporte mais rápido do mundo em 1903, atingia 206 km/h. Atualmente, os trens de alta-velocidade circulam a mais de 250 km/h. O sistema experimental de levitação magnética JR-Maglev, desenvolvido no Japão, ultrapassa a velocidade de 580 km/h.

Automóveis

Também durante o período da Revolução Industrial, vários experimentos foram feitos entre engenheiros franceses e ingleses para adaptar as carruagens da época ao uso da energia a vapor. Segundo o historiador Lymann Weeks, no livro Automobile Biographies (2011), no início do século XIX, o interesse dos ingleses por carruagens a vapor cresceu enormemente, ao mesmo tempo em que o medo da substituição dos cavalos pelo vapor levou o novo veículo a sofrer preconceito. Em 1801, um veículo criado pelo inventor britânico Richard Trevithick (1771-1833), movido a vapor e pesando mais de uma tonelada, chegou a atingir 14,5 km/h.

Desenho de um veículo movido a vapor, 1769. Fonte: Reprodução Wikipedia.

O motor a combustão interna, ou motor a explosão, também transforma energia térmica em mecânica, mas se diferencia do motor a vapor porque o processo de combustão acontece fora do motor. No caso dos motores a diesel, o ar é comprimido sem ser misturado ao combustível, que inflama quando injetado no fluido comprimido e quente. Os principais combustíveis utilizados são o álcool, diesel, carvão, querosene, gasolina, etanol, biodiesel e o gás natural. A popularização dos automóveis só foi possível a partir da criação da linha de produção, que barateou os custos e diminuiu o tempo de produção. O responsável foi o norte-americano Henry Ford, que abriu sua companhia em 1903.

A conquista do espaço

Apesar de estar na nossa imaginação há muito tempo, como mostramos no início deste texto, a fronteira espacial foi a última a ser rompida pelo homem. Ela está intimamente ligada à tecnologia dos foguetes. A possibilidade de usar foguetes para viagens espaciais surgiu em 1903, quando um professor e inventor soviético, Konstantin Tsiolkovsky (1857-1935) publicou cálculos mostrando como os foguetes permitiriam à nave atingir velocidades muito altas, para escapar à gravidade terrestre (a velocidade de escape terrestre é aproximadamente 11 km/s e em Júpiter é quase 60 km/s).

Segundo Raymond Friedman, em Uma história da propulsão a jato – incluindo foguetes (2010), Konstatntin também sugeriu que combustíveis líquidos seriam mais eficientes que combustíveis sólidos, mas àquela época ainda não se dominava esse tipo de tecnologia. O primeiro foguete projetado para usar combustíveis líquidos foi construído em 1922, pelo professor estadunidense Robert Goddard, da Universidade Clark. Um de seus foguetes chegou a atingir 27 km de altitude à velocidade de mais de 1000 km/h.

A nave espacial Voyager, operada pela Agência Espacial Americana, NASA, tem mais de 37 anos em operação. Lançada em 1977, atravessou os limites do Sistema Solar em 2012, com mais de 10 bilhões de km percorridos, adentrando o espaço interestelar, com uma velocidade de 17 km/s.

A tripulante da Estação Espacial Internacional, Tracy Caldwell Dyson observa a Terra em 2010. Fonte: Reprodução Wikipedia

Desde a primeira viagem do homem ao espaço, com o cosmonauta soviético Yuri Gagarin, a NASA investe em tecnologias para expandir a presença humana no espaço, inclusive para promover, futuramente, o transporte espacial em nível comercial, tentando chegar, como dizia o monólogo de introdução dos episódios da série de televisão norte americana Star Trek, onde nenhum homem jamais esteve.

Abrindo caminhos

Os persas e egípcios foram os primeiros povos a construir estradas, mas os grandes revolucionários nesse sentido foram os romanos, pois as estradas construídas por eles não se destinavam apenas a reis ou exércitos. Eram estradas públicas, destinadas à população urbana e rural. Em 312 d.C. os romanos começaram a construir a Via Appia, uma estrada de pedra, hoje protegida como patrimônio da Unesco. Graças à história de conquistas do Império Romano as estradas pavimentadas alcançariam mais de 80 mil quilômetros de extensão, representando uma maneira de comunicação que favoreceu o comércio entre cidades distantes.

Na Ásia, a Rota da Seda, que se estende por mais de 6 mil quilômetros, ligando Ocidente e Oriente, entre China, Índia e Mar Mediterrâneo, e por onde passaram mercadores, monges, nômades e soldados, foi muito importante para o desenvolvimento econômico da China. Ela começou a ser construída durante a Dinastia Han (206 a.C. – 220 a.C.) e foi expandida no mesmo período.