Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

Bruna Garabito
Por Victória Flório
12/11/14

Nesse último dia 9 de novembro todas as atenções se voltaram para Berlim, capital da Alemanha. Uma instalação com milhares de balões1 cobria 15 km de um dos mais conhecidos patrimônios da Unesco, o Muro de Berlim, erguido em 1961 e demolido em 1989, colocando um fim simbólico à Guerra Fria. Os balões foram iluminados e lançados ao céu para lembrar o 25º aniversário da queda do muro que dividia a Alemanha em dois países.

A queda do Muro de Berlim representou o fim da disputa político-ideológica entre capitalismo e comunismo. Segundo o historiador Michael Friedman, organizador do livro Muro de Berlim, o muro era o “símbolo de uma cidade dividida em uma nação dividida, em um continente dividido”. Sua construção é resultado de negociações pós- Segunda Guerra Mundial que dividiram a cidade de Berlim entre as potências do pós-guerra para conter a fuga de alemães do lado oriental para o lado ocidental, transformando uma cerca de arame em um imponente muro de concreto com mais de cinco metros de altura, 165 quilômetros de extensão, coberto com arame farpado, guardado por homens armados, cães treinados, torres de observação e minas.

Pós-Segunda Guerra Mundial: divisão da Alemanha

Com o fim da II Guerra Mundial, uma ‘cortina de ferro’ desce sobre a Europa. A expressão, criada pelo primeiro-ministro britânico, Winston Churchill em 1946, é uma metáfora para a separação da Europa em duas áreas de influência. O traçado da ‘cortina de ferro’ começou a ser planejado durante a Conferência de Yalta, em fevereiro de 1945, onde se reuniram Franklin D. Roosevelt, Churchill e Joseph Stalin, líderes dos Estados Unidos, Reino Unido e URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas), respectivamente. As potências concordaram que a Alemanha derrotada deveria ser dividida em quatro zonas de ocupação temporária, controladas pelos EUA, Reino Unido, URSS e França. O acordo foi reafirmado meses depois, durante a Conferência de Potsdam.

A divisão da Europa, importante para entender as tensões que levaram à construção do Muro de Berlim, formalizou-se com os tratados da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), em 1949, que unia as democracias da Europa Ocidental e Estados Unidos; e com o Pacto de Varsóvia, de 1955, que estabelecia o alinhamento de Bulgária, Hungria, Polônia, Checoslováquia, Romênia, Albânia, estados da URSS e Alemanha Oriental com Moscou. Para Friedman, a liberação das áreas ocupadas pelos nazistas levantou a questão: qual sistema deveria prevalecer: o capitalista ou o socialista, e onde?

As tensões na região aumentaram consideravelmente em 1948, após bloqueio terrestre imposto pela parte oriental, quando EUA, Reino Unido e França decidiram unificar suas zonas de ocupação sob a RFA (República Federal da Alemanha), ou Alemanha Ocidental. Com isso, em 1949, seria criada também a RDA (República Democrática Alemã), na zona de influência soviética.

Dentro da Guerra Fria

Depois de sofrer duas invasões da Alemanha, os soviéticos estavam determinados a mantê-la sob o regime comunista, enfraquecida, neutra e desarmada. Segundo Fritz Stern, professor da Universidade de Colúmbia, os aliados do Ocidente concluíram, em contrapartida, que a Alemanha e as outras nações europeias deveriam ser democráticas e prósperas, de modo a não permitir o avanço do comunismo para o resto do continente. Para assegurar essa prosperidade econômica, os EUA destinaram mais de US$ 13 bilhões para a reconstrução dos países europeus, por meio do Plano Marshall. Em contrapartida, no lado soviético, o Exército Vermelho desmontava fábricas na Alemanha Oriental e enfrentava revoltas populares na Alemanha Oriental (1953); Hungria (1956) e Checoslováquia (1968).

Uma das hipóteses é de que o muro tenha sido construído pelos soviéticos para conter a evasão para a Alemanha Ocidental, já que, de acordo com Friedman, entre setembro de 1949 e agosto de 1961, cerca de 2,7 milhões de alemães atravessaram a fronteira para Berlim Ocidental. Outros historiadores, no entanto, acreditam que os alemães orientais teriam pressionado os soviéticos a construir o muro.

A situação de repressão e vigilância interna a contrarrevolucionários, dissidentes e adversários do mundo soviético foi se tornando insustentável. É nesse contexto que foram criados a KGB (Comitê de Segurança do Estado), na URSS, e da Stasi (Ministério para Segurança do Estado), na RDA, ambas em 1950. A engenheira Olga Chusovitina, moradora de Magnitogorsk, ao sul dos Montes Urais, conta que, “pra ler o livro Dr. Jivago (de Boris Pasternak, 1958), por exemplo, a gente datilografava e compartilhava com os amigos”. Na Alemanha, a existência da Stasi, serviço de inteligência da RDA, agravou o quadro de repressão e as tentativas de fuga para a zona ocidental.  

Nos anos posteriores ao fim da Segunda Guerra Mundial, a economia da URSS e dos países do leste europeu alcançou resultados surpreendentes na indústria. Com o passar do tempo, no entanto, o regime comunista foi se tornando incapaz de atingir os mesmos resultados dos países do Ocidente. Para Alan Woods, isso evidencia que a burocracia e a corrupção dos oficiais da URSS seriam, em grande parte, responsáveis pela ineficiência do estado comunista.

Abertura

Durante a Conferência de Helsinki, em 1975, líderes da Alemanha Oriental concordaram (embora a contragosto) que as pessoas deveriam ter o direito de atravessar as fronteiras do Muro. Em 1985, reformas do governo Mikhail Gorbachev, secretário- geral do Partido Comunista Soviético, permitiam aos países do bloco oriental a formulação de políticas nacionais próprias, criando uma atmosfera mais liberal. A abertura da Hungria para o Ocidente, em 2 de maio de 1989, desmantelaria o sistema soviético, criando o primeiro buraco na ‘cortina de ferro’. A crescente migração para o lado ocidental da Alemanha foi o golpe fatal para a existência do muro: ele não fazia mais sentido.

Depois da Queda

A demolição do Muro de Berlim e o colapso do estado comunista na Alemanha Oriental e na URSS tiveram consequências em toda a Europa. Em 1989, várias capitais do leste europeu presenciaram movimentos de revolta contra os regimes stalinistas. Nas palavras de Fritz Stern, ao final de 1989 “o comunismo definhava” e a burguesia capitalista comemorou o que esse pesquisador chamou de “a vitória dos ideais americanos”. De acordo com Alan Woods, desde a queda do Muro, passa a ocorrer uma ofensiva constante às ideias do marxismo, em escala global. O movimento foi tão forte que determinou a morte do comunismo.

A comemoração dos 25 anos sem o Muro de Berlim levou mais de dois milhões de pessoas às ruas da capital alemã para acompanhar o momento em que mais de oito mil balões de hélio, dispostos sobre 15 km do antigo muro, foram simbolicamente liberados, iluminando os céus da cidade. A presença do presidente Joachim Gauck, do ex-líder soviético Mikhail Gorbachev e da chanceler alemã Angela Merkel, que cresceu na Alemanha Oriental, marcaram as celebrações. No discurso no Portão de Brandemburgo, Merkel afirmou que a queda do Muro de Berlim mostrou ao mundo que “os sonhos podem se realizar”.

Memórias do Muro -Entre 1961 e 1989, pelo menos 138 pessoas morreram ou foram assassinadas no Muro. É difícil afirmar com certeza o número de vítimas, já que muitas memórias e arquivos se perderam no caminho. Um livro publicado por Hans-Hermann Hertle e Maria Nooke tem o desafio de traçar esses dados. De acordo com esses pesquisadores, dentre as vítimas estão 100 fugitivos da Alemanha Oriental, que foram assassinados, acidentaram-se ou cometeram suicídio; 30 pessoas não pretendiam escapar, mas foram baleadas ou morreram em acidentes; e oito soldados da fronteira do lado oriental. Instituições como o Berlin Wall Memorial desenvolvem o trabalho importante de transmitir a história para as gerações futuras por meio de um acervo de depoimentos que podem ser consultados por qualquer pessoa.

Referências

Editorial de Alan Woods nos 20 anos do Muro de Berlim para a revista ‘The Marxist’.

Berlin Wall Foundation

Berlin Wall Memorial

Hans-Hermann Hertle e Maria Nooke. ‘The Victims at the Berlim Wall, 1961-1989”. Julho de 2011. Zentrum für Zeithistorische.  Potsdam, Berlim.

Hope Harrison,‘Driving up the soviets into the wall’, sem tradução para o português.

Instalação artística no muro de Berlim

 





1 ALICHTGRENZE, instalação luminosa, foi baseada na ideia de Christopher Bauder e Marc Bauder.