Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

Matheus Vigliar
Patrícia Piacentini
5/11/14

Quatro anos, três meses e 14 dias e um saldo de 15 milhões de mortes1 – assim foi a Primeira Guerra Mundial, conflito armado que envolveu países de todos os continentes, entre 1914 e 1918. Neste ano, foram realizadas muitas celebrações para lembrar os 100 anos do início deste conflito, que trouxe transformações políticas, sociais e culturais em todo mundo, além de modificar o mapa da Europa. “Foi a primeira guerra a alcançar repercussão planetária. Todas as regiões do mundo participaram, direta ou indiretamente do conflito. Proporcionalmente às populações dos países beligerantes e ao tempo de duração do conflito, o número de mortos, desaparecidos, mutilados e feridos ultrapassou quaisquer guerras anteriores”, salientou Estevão de Rezende Martins, professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB).

De acordo com João Fábio Bertonha, professor de História da Universidade Estadual de Maringá (UEM) e autor do livro A Primeira Guerra Mundial: O Conflito que Mudou o Mundo (1914-1918), foi a primeira grande guerra da era contemporânea. “Uma guerra que modificou profundamente o mundo anterior em todos os sentidos”, resumiu.

O estopim para o início da Primeira Guerra Mundial foi o assassinato do herdeiro do trono do Império Austro-Húngaro, o arquiduque Francisco Ferdinando, pelo jovem sérvio Gavrilo Princip, de 19 anos, em 28 de junho de 1914. O Império Austro-Húngaro declarou guerra à Sérvia e o conflito já começava com alianças formadas: a Alemanha apoiava os austro-húngaros e, a Rússia, os sérvios. Depois de um ataque alemão à Bélgica, o Reino Unido também entrou na guerra. Em uma semana esses arranjos foram costurados e a expectativa era que a guerra terminasse rapidamente. França, Itália, Estados Unidos, o Império Otomano e o Japão também não ficaram de fora. Até o Brasil mandou combatentes para a Primeira Guerra Mundial.

Imperialismo

Porém, para entender como o episódio com Francisco Ferdinando desencadeou o gigantesco conflito armado, é preciso considerar a política de dominação econômica e territorial dos países. No final do século XIX e primeira década do século XX, o clima na Europa era de progresso e de poder, traduzido no extenso processo de colonização e dominação sobre os outros continentes. “O imperialismo regional europeu é certamente um dos fatores relevantes para entender o conflito que opôs, inicialmente, o império austro-húngaro à Sérvia. O jogo das alianças defensivas acabou por colocar os contendores em dois campos: Áustria-Hungria, Alemanha e Itália (Tríplice Aliança) de um lado, e Inglaterra, França (Entente cordial) e Rússia de outro. Os Estados Unidos ingressaram na guerra em 1917 (o que foi decisivo para a balança pender para o lado da Entente, além de a Rússia ter saído do conflito por força das revoluções de 1917). O Brasil teve participação marginal (corpos sanitários) também a partir de outubro de 1917”, descreveu Martins.

Segundo Bertonha, ao contrário da Segunda Guerra Mundial, na Primeira não houve grandes interesses ideológicos. “Em geral, os países entraram na guerra por interesses variados: imperialistas, de autodefesa, econômicos, etc.”.

Guerra de Armas

A Primeira Guerra Mundial provocou mortes em grande escala por conta do armamento pesado utilizado pelos exércitos, além de armas químicas. De acordo com Bertonha, a grande novidade foi o uso maciço de metralhadoras. “A guerra levou ao desenvolvimento de armamentos que ainda hoje são utilizados, como aviões, submarinos e, especialmente, os carros de combate”, explicou.

Por isso, não é de se estranhar que a experiência trágica de 1914 a 1918 tenha sido denominada de indústria da morte. “Houve o desenvolvimento de três tipos de armamento em escala, ou seja, que provocaram mortes em grande quantidade: canhões e análogos de longo alcance (o alcance até então era curto ou médio, até cerca de um quilômetro), armas químicas e aviação”, expôs Martins.

Em 1918, os países começaram a se retirar do conflito e a Alemanha aceitou o armistício, encerrando a Primeira Guerra Mundial. Em 1919, na Conferência de Paris foram acertadas as medidas do pós-guerra: o Tratado de Versalhes considerou a Alemanha, transformada em República, culpada pelo conflito. O país teve que pagar uma indenização aos vencedores, perdeu suas colônias e, consequentemente, passou por uma crise econômica.

Bertonha destacou que o horror da Primeira Guerra levou um caldo de ressentimento e ódio a boa parte da Europa e favoreceu o surgimento de ideologias como o nazismo e o fascismo. “Tais ideologias não apenas absorveram e amplificaram todos os problemas e questões que já haviam levado à guerra em 1914, como os exasperaram, lhes dando uma roupagem ideológica. Não foi à toa que outra guerra foi deflagrada em 1939”.

Traçados geopolíticos

Os quatro anos de guerra trouxeram um novo desenho para o continente europeu. “Os grandes impérios do leste da Europa (alemão, austro-húngaro, turco-otomano e russo) desapareceram e se formou um grande vácuo de poder, gerando grande instabilidade. Além disso, os problemas que foram criados com a derrota alemã ajudaram a deixar o continente ainda mais instável geopoliticamente nas décadas a seguir”, afirmou Bertonha. “A Inglaterra perdeu substancial parte de seu prestígio econômico para os Estados Unidos, e inúmeros países do centro-leste europeu, que eram notadamente províncias austro-húngaras, se tornaram países independentes. O tabuleiro político, econômico e militar complicou, torando-se mais complexo”, explicou Martins. Ele acrescentou que a participação de inúmeras regiões do mundo na guerra expandiu o contato político e o interesse econômico para outros continentes, especialmente para a Ásia e, em menor escala, para a África.

Fim das ilusões

A Primeira Guerra Mundial transformou o mundo em vários outros aspectos. Para Bertonha, a principal talvez tenha sido o fim da crença no progresso contínuo e inevitável da sociedade, que dominou a Europa no século XIX. “Também o liberalismo – ou seja, a democracia e o livre mercado capitalista – começaram a ser questionados, em um processo que foi aprofundado com a crise de 1929”.

Martins acredita que houve uma evolução cultural favorável à busca de uma paz duradoura e do respeito aos direitos humanos com a tomada de consciência da crueldade da guerra. “É provável que o esforço de construir um fórum de negociação de paz contínua, como no caso da ONU (instalada só depois do fim da Segunda Guerra Mundial), e a valorização insistente da democracia política (representativa) e da cultura dos direitos humanos sejam os legados mais valiosos da carnificina que os homens infligiram aos homens ao longo do século XX”, concluiu.





1 De acordo com João Fábio Bertonha, professor de História da Universidade Estadual de Maringá (UEM) e autor do livro A Primeira Guerra Mundial: O Conflito que Mudou o Mundo (1914-1918).